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Fui passar uns dias de descanso em Bom Jesus dos Pobres, distrito de Saubara, no Recôncavo Baiano. Aluguei um flat, cuja sacada tinha vista para o mar. Dela eu via a vastidão da água salgada e, bem distante dali, a perder de vista, ilhas que o meu imaginário povoava com pessoas e monstros — necessários para castrar a criatividade e a liberdade dessas mesmas pessoas.

Ao redor da sacada, copas de árvores se entrelaçavam: amendoeiras, coqueiros, jenipapeiros e dendezeiros, habitados por marimbondos barulhentos.

Durante a noite, olhar de cima, para quem viveu a vida inteira imerso no complexo de vira-lata, ainda causava medo e vertigem. O Brasil já começava a sair desse estado psíquico, mas alguns de nós continuávamos presos a ele.

Olhar de cima exige autoestima.

O cenário estava montado: a altura, a imensidão da água, as copas das árvores que pareciam um solo incerto e um céu negro salpicado de pontos luminosos — alguns fixos, outros móveis — alimentavam a esperança. Somavam-se a isso vagalumes em número tão grande que era impossível contá-los.

Havia ali sons dignos de uma trilha sonora composta pelo próprio universo: zumbidos, chocalhadas, folhas secas sendo pisadas por seres inimagináveis. Talvez espíritos vagantes ou personagens do folclore nordestino, que se transforma conforme cada canto do Brasil, do litoral ao sertão.

Era impossível sentir-se sozinha.

Havia muitas companhias.

Levantei os olhos para o céu que, mesmo escuro, parecia azul. Foi então que percebi uma ladeira íngreme bem à frente da sacada: parte coberta por concreto despejado por moradores precipitados, parte em terra batida, servindo de passagem entre a mata fechada e casas isoladas à beira da praia.

Algumas gotas de chuva haviam caído. O cheiro da terra subiu, quase materializando-se. Um cheiro seco de vida e de morte.

Foi quando um vulto surgiu no topo da ladeira.

Roupas escuras. Chapéu de abas longas. A cabeça inclinada para a frente, ombros esguios, como sustentados por cabides, pernas longas e pés descalços. A figura parou ao perceber minha silhueta recortada pela luz que vinha do interior da casa. Tirou o chapéu, e uma longa cabeleira vermelha desabou como uma cascata, moldando-lhe o rosto. A lua, tímida, produzia efeitos translúcidos, como se uma aura substituísse o objeto que antes lhe cobria a cabeça.

Prendi a respiração. Avaliei meu nível de segurança, medindo a distância e a altura que impediam o acesso daquela coisa — que já não parecia tão humana quanto antes. Franzi a testa, estreitando os olhos, e intuí que ela fazia o mesmo.

O coração gelou.

Pensei em entrar e fechar a porta, mas minhas pernas não obedeciam. A imagem daquela figura no topo da ladeira parecia vir do céu. Fechei os olhos, tentando acreditar que tudo não passava de imaginação. Ao abri-los, lá estava novamente: um corpo alto, frágil e profundamente ameaçador diante do meu espanto.

Sem aviso, sua cabeça girou ao contrário, enquanto o corpo permanecia de frente.

A chuva cessara por completo. O cheiro da terra molhada dissipava-se com o vento. Uma via láctea de vaga-lumes migrou em direção à ladeira, como se, unidos, projetassem uma única luz sobre a cabeleira vermelha.

O vento uivou. Os cabelos da criatura se ergueram como a saia de Marilyn Monroe, desafiando a gravidade.

Sem fôlego, observei cada mecha incendiar-se em labaredas. Minhas pernas, antes imóveis, começaram a tremer, fazendo vibrar todo o meu corpo.

A criatura gargalhou alto, reconhecendo meu medo. Foi então que compreendi: tratava-se de uma fêmea, de alguma espécie não humana.

Minha mente gritava para que eu estendesse o braço e alcançasse o celular a poucos centímetros de mim. Mas o sentimento de conexão que atravessava aquele instante me fez entender o perigo do registro — para ela e para mim.

De repente, seu corpo dobrou-se em cento e oitenta graus, e a cabeça voltou-se em minha direção, como se tivesse captado meus pensamentos.

Meu corpo arrepiou-se por inteiro quando ela assumiu a forma quadrúpede. Agora, não apenas os cabelos, mas também a cabeça estavam em chamas. As labaredas funcionavam como lanternas, iluminando o céu, as árvores e a ladeira.

As lágrimas escorreram pelo meu rosto. Aceitei meu destino de única testemunha do poder da natureza.

Ela ergueu as patas dianteiras em minha direção, enquanto a gargalhada se transformava num relincho místico. Era o nosso segredo.

Quis gritar, perguntar seu nome, saber de que espécie era aquela criatura. Nenhum som saiu da minha garganta. Observei-a girar três vezes em torno do próprio corpo e galopar rumo ao infinito.

Os vaga-lumes seguiram o galope sinuoso.

Permaneci ali, estática, até o amanhecer. Quando a luz do dia trouxe menos medo, desci as escadas da casa e subi até o topo da ladeira. Na terra, marcas de patas desenhavam um grande círculo. No centro, havia uma palavra escrita, que à época me era completamente estranha.