Cidades Feira de Santana-BA
RAIZEIROS E CURANDEIROS AINDA EXISTEM E MOSTRAM CONHECIMENTOS
A coluna Feira em História, assinada pelo jornalista Zadir Marques Porto, traz fatos históricos e curiosos sobre a cidade
22/04/2026 08h46
Por: Antônio Carlos Garcez Fonte: Prefeitura de Feira de Santana - BA

Fotos: Gabriel Calazans

A sabedoria popular, em muitos casos, suplanta a teoria e, na verdade, a teoria às vezes nasce da prática. Muito antes da Revolução Industrial e da recente Inteligência Artificial, a medicina popular contribuiu sobremaneira no combate a muitas doenças. Curandeiros, curadores, raizeiros, como queiram, ainda existem e trazem seus históricos conhecimentos para os dias atuais.

Uma antiga profissão, sem data de surgimento, mas oriunda de antigos povos dos mais diferentes pontos do planeta, ainda resiste teimosamente na era da cibernética, da Inteligência Artificial, mostrando que o conhecimento popular não se perde com o tempo e pode marchar com ele em benefício da humanidade — no caso específico — a saúde humana, mesmo com a extraordinária evolução da tecnologia. Os curandeiros e raizeiros, que já ocuparam lugar de destaque no cenário da cultura popular, ainda podem ser encontrados, em número reduzido, prestando serviço àqueles que os procuram.

Com mais de três décadas dedicadas à atividade, Isabel Silva Araújo não tem queixas da profissão, mesmo encontrando dificuldades em alguns locais aonde chega com a sua itinerante função. Mas, na maioria dos casos, é até bem recebida, paga uma taxa de solo ocupado, arma a sua barraca e vende seus produtos, sempre propagando por meio de um serviço de som que ela mesma opera. Em Feira de Santana foi muito melhor, garante: “Aqui a Prefeitura me concedeu espaço na Praça Bernardino Bahia, de 4 a 15 de março, sem nada cobrar. Eu agradeço muito esse apoio e compreensão da Prefeitura”.

Natural de Porto Seguro, mas já radicada em Feira de Santana há 32 anos, embora viajando constantemente por cidades do Nordeste — em Pernambuco, Ceará, Alagoas, Paraíba, Sergipe — e indo até mais distante, em Minas Gerais, Isabel Araújo revela que aprendeu a arte ou ciência de trabalhar com plantas medicinais, ou seja, raizeira, convivendo com os índios pataxós no município de Porto Seguro. “São muitas aldeias, eu acompanhava o trabalho dos pataxós, localizando e identificando espécies, folhas, frutos, sementes, raízes, cascas, tudo que é útil e também o que não serve. Assim aprendi a utilizar a flora nativa para produzir remédios valiosos”, salienta.

Isabel Araújo garante que, assim como há folhas e raízes de enorme significado, também há outras perigosas para a saúde e aquelas que nada representam. Com o conhecimento de mais de 30 anos, ela atende clientes que reclamam de determinado mal. Em menos de 15 minutos, reúne uma série de folhas e raízes e prepara uma garrafada, explicando à atenta senhora todos os componentes e a ação positiva de cada um deles. Ressalta a riqueza da flora brasileira e que conhece bem cerca de 500 espécies de plantas, mas “o número é bem maior, são milhares”. Garante que, além do conhecimento prático iniciado com os curandeiros pataxós, também procura estudar, embora a literatura disponível não seja farta. Há combinações de mais de 30 espécies — as chamadas garrafadas ou coquetéis, com efeitos garantidos —, como também há folhas e raízes para chás, que são indicadas e usadas individualmente.

Observa Isabel Araújo que muitas pessoas deixam de usar plantas medicinais conhecidas para comprar remédios caros, citando alecrim, babosa, maracujá, erva-cidreira, barbatimão, fedegoso, confrei, catuaba, quebra-pedra, sálvia, noz-moscada, jurubeba, papoula e malva como algumas das espécies mais conhecidas e hoje pouco usadas. Atualmente, a maior procura, segundo diz, é de pessoas preocupadas com diabetes. “Oitenta por cento se queixam da diabetes, e grande parte dos homens procura tratar a próstata. Há também dores nas articulações, insônia, fadiga, pressão, mas há remédios naturais para tudo” e até mesmo para vitiligo, doença da pele que vem ocorrendo com frequência. “Se a doença é nova e for tratada logo no surgimento, tem como parar, ela não desenvolve, mas tem que ser no início”, diz.

Em relação à diabetes, um dos males que mais preocupam na atualidade, ela aponta: pata-de-vaca, jambolão e insulina como fundamentais. Quanto à atividade de raizeira, pretende continuar e, a cada dia, estudando mais para se aperfeiçoar. Sabe que a atividade está se esgotando, como tantas outras profissões populares, mas gosta do que faz. Casada, é mãe de quatro filhos. Um é médico, e João Batista, de 34 anos, é o único a segui-la, isso desde os 14 anos.

Considerando-se bom conhecedor da flora regional, João Batista vem trabalhando como raizeiro com a pretensão de manter viva a profissão que a mãe exerce. “Sei que em tempos longínquos não existiam farmácias, médicos, laboratórios, nada disso; o tratamento de doenças era feito com plantas e raízes, graças à sabedoria popular. Esse conhecimento não devemos deixar desaparecer”, conclui.

Por Zadir Marques Porto



Foto: Reprodução/Prefeitura de Feira de Santana - BA
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